“Se ganha Bolsonaro, eles nos matam; se ganha Lula, eles nos deixam morrer.”

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As Eleições de 2026 no Brasil

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No Brasil, o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva do Partido dos Trabalhadores está chegando ao fim. Lula poderia ganhar um quarto mandato – tornando-o o político mais votado da história do país – se derrotar o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Porém, Flávio Bolsonaro – filho do homem apelidado de “Trump dos Trópicos”, que tentou um golpe de Estado em 2023 surpreendentemente semelhante ao que Donald Trump tentou em 2021 – está perigosamente perto de assumir a liderança nas pesquisas.

É importante avaliar as ameaças que um novo governo Bolsonaro representaria, bem como os riscos que permanecerão ou emergirão sob um governo contínuo de centro-esquerda. Para isso, conversamos com anarquistas participando de movimentos sociais brasileiros e levantamos algumas questões a respeito dos desafios que ambos os cenários poderiam representar para os seres humanos, o meio ambiente e os movimentos sociais que resistem ao capitalismo e ao colonialismo.

Flavio Bolsonaro em uma foto-op com Trump em maio de 2026 durante uma reunião em que ele fez lobby para que os EUA designassem os cartéis de drogas brasileiros como “grupos terroristas”.

O que as eleições de 2026 significam para o Brasil e as Américas

A eleição de 2026 pode definir o quanto de turbulência e destruição daquilo que foi conquistado com muita luta social. Assim como Trump voltou ao poder em 2024, corremos o risco de Flávio Bolsonaro retomar o caminho de extremismo e ataque às classes trabalhadoras, excluídas, mulheres, indígenas e o meio ambiente. O Partido dos Trabalhadores e a esquerda jamais conseguiram projetar novos nomes para suceder seu messias e líder carismático. E, sem Lula, parecem estar condenados à derrota nas urnas. 

Existe um risco de a esquerda não conseguir um novo nome para 2030, quando Lula não poderá mais tentar uma reeleição. Mas existe também o risco de Lula ser afetado pela chamada “crise do incumbente” que parece ter se tornado um padrão em eleições ao redor do mundo nessa década. Governantes de esquerda e de direita tendem a sofrer grandes desgastes em sua imagem ao chegarem ao poder e não conseguirem reverter os efeitos inevitáveis do Capitalismo na vida das pessoas comuns. Além disso, o componente simbólico e ideológico também pesam em cenários políticos cada vez mais polarizados dentro de uma perspectiva eleitoral burguesa.

Portanto, é provável que a extrema-direita volte logo ao poder. É uma realidade que precisamos encarar desde já. Isso pode acontecer em 2030, mas também pode acontecer ainda em 2026.

Em um contexto em que os Estados Unidos de Trump tentam reorganizar a ordem mundial pela força, expondo o que anarquistas sempre disseram sobre a farsa e a incapacidade da democracia representativa, o direito internacional e de instituições como a ONU em nos proteger. Apenas em 2 anos no poder, a nova gestão Trump nos EUA derrubou dois presidentes, matando o líder iraniano em meio a uma guerra instigada por Israel, e sequestrando o presidente venezuelano. Em ambos os casos, falou abertamente sobre tomar o petróleo desses territórios. Sendo que na Venezuela foi muito bem sucedido em roubar bilhões de barris, e agora o país inteiro está sob a tutela de Washington.

Se tivermos um chefe de estado como Flávio Bolsonaro, ele vai entregar voluntariamente o território, nossa força de trabalho, as matas e os solos para os interesses imperiais estadunidenses. Se já estamos em uma terrível situação com o neoliberalismo gerido por Lula, com um negacionista, fascista, subserviente aos interesses dos EUA no poder, a luta pela vida ficará ainda mais difícil. E o petróleo, os minerais, os rios e as matas que se encontram dentro do território conhecido como Brasil, servirão para alimentar ainda a corrida tecnológica, militar e nuclear que coloca a vida no planeta inteiro em risco.

E, obviamente, os Estado Unidos estão abertamente trabalhando para interferir nas eleições brasileiras e favorecer Bolsonaro, enviando “observadores” para questionar o resultado das eleições e ameaçando o país com mais tarifas. Ao mesmo tempo, a Meta estadunidense, que controla grande parte do conteúdo que circula nas mídia sociais, bloqueia conteúdos de campanha de Lula sem justificativas há poucas semanas das eleições. As mesmas elites com uma mesma agenda reacionária controlam o poder militar e as empresas de tecnologia e comunicação digital.

Anarquistas e torcedores do Atlético marchando contra a escala 6x1.

Fracassos da esquerda: os efeitos do terceiro mandato de Lula

O cenário deixado pelo governo anterior, de Jair Bolsonaro, é de terra arrasada e ainda assusta quem se lembra do que é estar vulnerável aos seus efeitos. Bolsonaro conduziu o país em meio a uma pandemia global, sem qualquer planejamento que dialogasse com a realidade, baseando-se em teorias conspiracionistas e propagando desinformação. Com seu trabalho, ele arrastou todo o espectro político alguns passos para a direita. Nesse contexto, Lula se apresentou como a única saída. Mesmo com um programa cada vez mais pacificado e conservador, seu governo parece até um sonho, um oásis no deserto. Tudo o que nos resta seria confiar que em um ou dois mandatos, Lula resolvesse os problemas sociais, econômicos, políticos e ambientais, enquanto faz mais a mesma aliança com as oligarquias políticas e com o capital transnacional. 

Após uma vitória apertada em 2022, Lula tomou posse e subiu a rampa do Palácio do Planalto ao lado de representantes de grupos marginalizados e minorias sociais: uma criança negra, um líder indígena, um influencer PCD, um professor, um metalúrgico, uma catadora de materiais reciclados. Mas em poucos meses estava aliado ao Centrão e à direita e às mesmas elites de sempre para poder governar. Mesmo começando com a popularidade em alta com redução do Imposto de Renda para os mais pobres e baixa no desemprego, seguiu com a reforma agrária e demarcação de terras paralisadas, teto de gastos para programas sociais. O terceiro governo de Lula serve para amenizar os traumas do capitalismo levados ao extremo durante a gestão Bolsonaro, sem tocar nos ganhos das elites que vivem de juros e rentismo. Pouco é feito para regular a plataformização, ou uberização, do trabalho precarizado, enquanto plataformas de apostas digitais, as bets, viciam e drenam os rendimentos de quem trabalha por um salário mínimo. 

2022: posse de Lula no Palácio do Planalto. Um espetáculo para distrair.

De forma ainda mais recuada do que os primeiros 4 governos petistas de Lula e Dilma, o terceiro mandato de Lula-Alckmin foi marcado por ainda mais conservadorismo econômico e pacificação das lutas sociais. Enquanto se reunia com representantes de governos e empresas para discutir “soluções” ambientais com aqueles que destróem o ambiente, na COP30 in Belém em Belém, Lula avançava com o decreto que privatizava o uso dos rios amazônicos Madeira, Tocantins e Tapajós como hidrovia para escoar grãos, minério e madeira. Além de implementar diversas outras obras de alto impacto social e ambiental em uma terceira edição do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Apesar de acenar para a chamada transição ecológica, o governo petista apenas repete a mesma receita extrativista e exportadora de matérias primas que produz desastres ambientais.

A presidente da Petrobras chegou a repetir a frase de Donald Trump “drill, baby drill”, ressaltando que perfurar poços de petróleo na foz do Rio Amazonas ainda é prioridade do governo para conseguir dólares para suas contas, mesmo com resistência popular e alerta de cientistas para os riscos da exploração em uma área tão sensível para a biodiversidade. Em nome de uma expansão da infraestrutura de produção capitalista, biomas e populações inteiras são colocadas em risco. Na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, símbolo da crise humanitária que atingiu os povos originários na gestão Bolsonaro, o número de óbitos segue tão grande ou maior que os do governo anterior. A crise não foi controlada como prometido durante a campanha eleitoral de Lula e Alckmin. 

Nas cidades, não foi muito melhor. Mesmo repetindo a fórmula de exportar minério e produtos agropecuários para financiar os gastos sociais, a gestão de Lula-Alckmin ignorou o quanto pôde pautas como o fim da escala 6x1. Apenas às véspera das eleições, seu discurso passou a incluir o tema como proposta de campanha. Se o fim da semana de 6 dias de trabalho for aprovada pelo Congresso, será por força da mobilização popular, e não da ação de um governo dito “dos trabalhadores”, que sabotou marchas nacionais pelo fim da escala 6x1 para convocar suas bases para ir para as ruas contra a anistia para Jair Bolsonaro e outros participantes da tentativa de golpe de 2023. Repetindo o que fez ao ignorar os protestos da Pandemia contra o governo de Bolsonaro.

Setembro de 2026: Trabalhadores de entrega baseados em aplicativos protestam por melhores condições de trabalho e uma taxa de entrega mínima. Base organizando-se contra a “uberização” do trabalho.

Em 2024, Lula agiu para impedir qualquer declaração oficial do governo sobre os 60 anos do golpe empresarial-militar de 1964, cedendo à pressão do ministro da Defesa José Múcio – um aliado de Jair Bolsonaro e o alto comando militar que havia orquestrado a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.

O governo passou a incorporar a abordagem da direita na segurança pública enquanto o feminicídio bateu recordes históricos no país e as chacinas policiais aumentaram em brutalidade – como no massacre da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro em 2025, a ação policial mais letal da história, que matou mais de 120 pessoas. Para manter de pé uma república em declínio, implementar as obras desenvolvimentistas do PAC 3 para agradar o capital estrangeiro, é necessário aumentar o policiamento, armamento das forças de segurança e ampliação do complexo penitenciário e do encarceramento em massa. Para isso, criou uma nova edição do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (PRONASCI 2). Além de nunca romper relações com o estado de Israel, nos últimos 3 anos, o país gastou 250 milhões de reais em armas israelenses.

Falando da indústria de “segurança”, o governo de Lula passou 50 milhões de dólares em armamento israelense nos últimos três anos. Enquanto condenava Israel pelo genocídio palestino em várias ocasiões, como na Assembleia Geral da ONU em 2025, o governo Lula nunca cortou os laços com o governo sionista. Da mesma forma, apesar de condenar o embargo que põe em risco a vida de milhões de pessoas em Cuba, o Brasil continua a reter os envios de combustível para a ilha enquanto enviava petróleo diretamente para alimentar a máquina de guerra israelense.

Manifestantes marcham em São Paulo pelo fim da escala 6x1.

Os riscos dos sucessos da direita

Flávio Bolsonaro é filho do ex-presidente Jair Bolsonaro que tentou um golpe em 2023 com ajuda das forças de segurança e as elites políticas e econômicas do país, de uma forma semelhante, mas muito mais perigosa do que Trump fez ao ser derrotado em 2020. Seu projeto de governo é abertamente inspirado nos programas autoritários para segurança pública de Donald Trump nos EUA e Nayib Bukele em El Salvador, e de destruição das proteções sociais que Javier Milei promove na Argentina. 

Já experimentamos como a extrema direita pode piorar uma tragédia em grande escala como foi a pandemia da Covid-19. Agora, quando eventos como o El Niño atingem um mundo já afetado pelo aquecimento global, o abismo entre classes se aprofunda, políticos e os super ricos revelam a farsa do direito internacional e trabalham por uma guerra civil global, como mostram as recentes agressões dos EUA contra Irã e Venezuela. Um governo bolsonarista atuando com a intervenção direta dos Estados Unidos pode resultar em retrocessos e catástrofes ainda mais devastadoras para os povos e seus territórios. É preciso nos preparar desde já para quando a esquerda institucional não puder mais nem amenizar as consequências do colapso capitalista e seu fascismo militante, nem impedir suas vitórias eleitorais por uma margem mínima. Pois esse futuro já não é mais uma promessa distante. 

Após anos de pura destruição ideológica e poucas habilidades reais de gestão, Trump e Bolsonaro foram vencidos em eleições democráticas. Sua imprevisibilidade os tornam perigosos até mesmo para as elites que desejam um pouco de estabilidade e algum programa sólido de governo. Ainda assim, o apoio popular e eleitoral desses líderes seguem firmes e dividindo a sociedade praticamente ao meio. 

Não é mais apenas “a economia, idiota”, como diriam os manuais políticos das décadas de 1990, que foram válidos até os 2000. O que contava para o eleitor, mais do que ideologias ou valores morais, era o quanto ele sentia no bolso que os governos faziam pelo cidadão médio. Mas agora, outros fatores entram em jogo neste início de século. Tanto Biden quanto Lula atingiram bons indicadores econômicos ao final de seus mandatos, com baixo desemprego, aumento da renda média e inflação controlada. Ainda assim, não conquistaram fatias consideráveis do eleitorado para ter boa vantagem. Democratas não impediram Trump de ser eleito para um segundo mandato em 2024 e o filho de Jair Bolsonaro ameaça a liderança de Lula nas pesquisas de 2026. 

A chamada polarização entre campos dominantes da política eleitoral depende de fatores mais complexos do que números objetivos. Para trumpistas do movimento MAGA (Make America Great Again) nos Estados Unidos e os membros do chamado “Partido Digital Bolsonarista”, a batalha entre esquerda e direita é uma batalha existencial e, sobretudo, por identidade. Muitas vezes tratada como uma “guerra santa” entre “o bem e o mal”, onde tudo é negociável, menos a devoção ao seu líder e “salvador”. As lideranças populistas de extrema-direita só são tão atraentes para a população porque se apresentam como antissistema em um mundo onde ninguém mais acredita no sistema.

Quando falamos que uma base social é fundamental para levar adiante uma agenda política e de longo termo, é preciso reconhecer que a extrema-direita brasileira, assim como seus pares em nas Américas e partes da Europa, está muito mais mobilizada para propaganda e recrutamento que a esquerda e grupos antiautoritários. E ela fez isso se apropriando de ferramentas, plataformas digitais e modos de organização descentralizadas da esquerda radical. Seguem agindo de forma independente para defender discursos de seus líderes e recrutar militantes. 

No momento em que figuras como Bolsonaro, Trump, Putin ou Milei estão no controle de um país inteiro podemos ver os perigos reais que a democracia nos oferece. Quanto maior a concentração de poder econômico, militar, político e moral um Estado possui, maiores são as consequências para os grupos mais vulneráveis quando esse poder cai nas mãos de líderes autoritários e egocêntricos. Eles podem destruir políticas e estruturas que sustentam a vida de milhões de pessoas ou declarar guerras contra inimigos internos, externos ou imaginários com apenas uma ordem.

Os chefes de empresas como Amazon, Meta, Google, Apple e Tesla/SpaceX compareceram à posse do segundo governo de Trump, em 2025, para saudar o “retorno do rei”. Eles demonstram que estarão também como devotos nessa guerra para manter o controle de territórios, recursos e populações ao lado de líderes dispostos à levar o Capitalismo de volta a sua fase de puro colonialismo e expropriação genocida. Alguns como os donos da Meta e do Google até mudaram abertamente seus discursos pretensamente progressistas do Vale do Silício, para resgatar valores masculinistas e autoritários.

Dezembro de 2025: Pixo em um ato em Belo Horizonte: “Brasil: Terra indígena”.

O Voto Não Pode Vencer uma Distopia

O que acontece em Gaza ou em qualquer favela, gueto ou nas florestas, é o que pode acontecer a qualquer população que se torna indesejável, com qualquer insurgência ou território rebelde. Os mesmos equipamentos de guerra utilizados por Israel na Palestina, são vendidos em feiras internacionais para polícias controlarem as periferias do sul global ou para prender e deportar imigrantes nos Estados Unidos. As empresas de tecnologia que controlam as mídias sociais, transações bancárias ou aplicativos de mensagens que bilhões de pessoas usam todos os dias, são as mesmas que desenvolvem programas e inteligência artificial que controla armas que matam com cada vez mais autonomia. Elas capturam nossos dados, da mesma forma que capturam os de alvos civis palestinos, libaneses ou iranianos. Repensar nossas lutas precisa incluir pensar formas de nos comunicar e compartilhar dados e recursos sem alimentar uma máquina de guerra que pode e irá se voltar contra nós quando nos revoltarmos, ou quando nossos líderes bem entenderem.

Inundações, incêndios, secas, ondas de calor, misoginia, racismo, epidemias, migração forçada e forças policiais que são cada vez mais brutais e fortemente equipadas. Líderes políticos e bilionários da tecnologia falam abertamente sobre a realização de guerras genocidas para proteger seus interesses. Aqueles que perpetram o genocídio mais documentado de todos os tempos em Gaza não enfrentaram consequências ou obstáculos. Os defensores do fascismo exploram essas crises para ressurgir descaradamente em todo o mundo. Hoje, a crise não é um momento passageiro, mas uma condição permanente que continuará a se aprofundar até o dia em que o sistema entrar em colapso.

Nesse contexto, o descontentamento constante que não se torna revolucionário é combustível para os movimento e partidos reacionários. Devemos pensar, mais uma vez, em formas de ser e agir no mundo que não dependa da benevolência de um governante que vai embora em 4 anos, ou de instituições tão poderosas e centralizadas que não podemos controlar. Precisamos saber agir para além do período eleitoral, não apenas delegando nosso poder para representantes, mas partindo para a ação e nos organizando desde já para defender o mundo em que queremos viver. 

Anarquistas e torcedores do Atlético marchando contra a escala 6x1.

Ao reformar as instituições da democracia burguesa, apenas ajudamos ela a perdurarem um sistema de dominação e opressão que encarcera e mata a população negra e indígena, que impulsiona o feminicídio, a destruição dos biomas e do que sustenta a vida na terra. Se não organizamos a sociedade de forma a não permitir que tiranos tomem e conservem o poder em suas mãos, estaremos sempre sujeitos a perder tudo o que conquistamos.

Assim como Bolsonaro mudou todo o espectro político para a direita – reduzindo a esquerda a apenas buscar conservar ganhos sociais e direitos básicos – novos candidatos de extrema-direita estão normalizando ainda mais propostas autoritárias. Mesmo sem uma chance real de vitória, figuras como Renan Santos (do Partido da Missão e o MBL) tentam romper com o bolsonarismo fazendo declarações ainda mais extremistas e sensacionalistas. Seu objetivo é normalizar o discurso fascista para as gerações futuras para que, durante tempos de conflito social elevado, suas “soluções fáceis” pareçam mais atraentes para grupos que buscam usar a violência contra os oprimidos para salvaguardar seus próprios privilégios.

O recente escândalo do Banco Master – o maior caso de fraude fiscal já registrado no Brasil – envolveu o desvio de 57 bilhões de reais (11 bilhões de dólares) de fundos de aposentadoria, empresas e cidadãos privados. A fortuna de seu proprietário, Daniel Vorcaro, ajudou a financiar um filme de propaganda apoiando Jair Bolsonaro (em inglês e com atores de Hollywood) que serviu como caixa 2 para bancar a vida de seus parentes e aliados nos Estados Unidos para convencer o governo Trump a intervir na política e na economia Brasileira. Ao mesmo tempo, Vorcaro usa seu dinheiro e influência para cooptar membros do poder Judiciário, do Parlamento, bancar novos líderes da extrema-direita e viabilizar empreendimentos de mineração ilegal em Minas Gerais, que oferecem risco ambiental e social, como os que levaram aos rompimentos de barragens de rejeitos nas cidades de Brumadinho e Mariana, matando pessoas, animais, florestas e rios inteiros. 

Somente esse caso isolado prova que as elites estão juntas e organizadas para defender seus interesses, promovendo uma agenda que conecta corrupção, fascismo, destruição ambiental em uma guerra aos povos por controle das nossas vidas e nossos territórios. 

A única saída desse cenário é responder a essa ofensiva nos organizando e nos aliando para nos defender e defender o planeta de uma classe de tiranos e genocidas. É preciso partir para ação direta como fizeram os povos do baixo, médio e alto Tapajós, junto de Tupinambás, pescadores e quilombolas, que ocuparam o terminal portuário da transnacional Cargill por mais de um mês, parando a distribuição e a logística da empresa. Movimentos da cidade e outros territórios se somaram divulgando, se solidarizando presencialmente, e aumentando o tom, ocupando também escritórios da empresa e organizando atos em várias cidades.

Como os anarquistas sempre disseram: “O fascismo deve ser combatido nas ruas”. Londrina, 2023.

A ação autônoma – não restringida pela influência pacificadora que caracteriza os movimentos sob a tutela do Partido dos Trabalhadores – é o único caminho a seguir. Em nenhum momento da história o fascismo foi derrotado apenas através de vitórias eleitorais. Precisamos nos inspirar e divulgar as ocupações urbanas e rurais, a autodemarcação de terras indígenas, greves de trabalhadores de entrega baseadas em aplicativos e redes de ajuda mútua nos arredores. Precisamos construir coletivos e movimentos sociais que sejam organizados e autodeterminados a partir das bases – como as mulheres na Argentina e no México lutando pelo direito ao aborto e contra o feminicídio, ou aquelas lutando pela vida e pela liberdade no Irã. Devemos aprender com a juventude no Nepal e na Indonésia desafiando seus governos e policiais; de imigrantes e cidadãos que organizam resistência contra o ICE – a agência de fiscalização da imigração que atua como milícia de Trump nos Estados Unidos; e dos territórios ligados à Teia dos Povos, que promove alianças entre quilombos, terras indígenas e ocupações urbanas e rurais no Brasil, fundamentadas em uma perspectiva anticolonial e anticapitalista.

A luta é por vida, liberdade, território e autodeterminação. Não importa quem ganhar as eleições, uma coisa não mudará: o pior dos cenários já está montado e não serão líderes eleitos nem empresas que vão nos tirar do apocalipse que eles mesmos criaram. Como dizem nos movimentos de luta pela terra: “se Bolsonaro ganha, nos matam; se Lula ganha, nos deixam morrer.” 

Votando ou não, é preciso lutarmos para sermos ingovernáveis. Como se a vida do planeta dependesse disso – porque ela de fato depende.

Anarquistas em Belo Horizonte em marcha no Primeiro de Maio contra a escala 6x1.

Para ler mais:

Outra Campanha - Política Além do Voto no Brasil

ANÁLISE DE CONJUNTURA – Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) – SETEMBRO/2026