Como o punk emergiu das contraculturas dos anos 1960 que dizia rejeitar? Por que o movimento desempenhou um papel tão central no ressurgimento do anarquismo em todo o mundo no final do século XX? Como ele prefigurou a mídia participativa da era digital? E o que seu legado pode nos ensinar hoje?
O texto a seguir é o prefácio de “Smash The System! Punk Anarchism as a Culture of Resistance, um novo livro publicado pela Active Distribution. Você pode pré-encomendá-lo aqui. Você também pode baixar gratuitamente quase todos os discos de punk e hardcore que a CrimethInc. lançou ao longo dos anos aqui.
“PUNK ROCK É IGUAL A ANARQUIA MAIS GUITARRAS E BATERIA. QUALQUER COISA MENOS QUE ISSO É MERA SUBMISSÃO.”
-Italian Punk
Punk: Uma Utopia Perigosa
Vamos imaginar o meio cultural ideal para o anarquismo.
Ele teria que ser desafiadora, obviamente. Deve acomodar tanto uma alegre ironia quanto uma coragem escandalosa. Mas vamos fazer dela algo afirmativo também, mesmo que tenhamos que percorrer um longo caminho através do sofrimento e de uma catarse para chegar lá. Não queremos um niilismo que torna difícil sair da cama de manhã – queremos o tipo de niilismo que mantém as pessoas fora a noite toda causando problemas.
Para começar, então, vamos definir o nosso ponto de partida nas artes criativas: música, moda, design, grafite, escrita, fotografia e crimes menores. Estas são práticas fundamentalmente afirmativas, mesmo quando expressam raiva e desespero – e os custos iniciais são bastante baixos. Coloque a música na frente e no centro de tudo isso, então a alfabetizada não é uma barreira para ninguém.
Esteticamente, vamos querer que ela seja crua e disruptiva. Jogue fora todas a necessidade de especialistas; deixe de lado os clássicos. No máximo, podemos manter algumas das inovações que a indústria da música roubou de pessoas da classe trabalhadora. Afligir os confortáveis, confortar os aflitos.
Economicamente, se não podemos romper unilateralmente com o modo de produção capitalista, vamos construir em algumas normas para neutralizar seus efeitos: controles de preços (“não pagar mais do que cinco reais”), uma aversão ao lucro e todas as coisas corporativas, uma ética de fazer você mesmo. Coloque toda a ênfase em coisas que não podem ser compradas. Se isso significa um discurso sobre “autenticidade”, que assim seja.
Essa subcultura teria que ser inclusiva – e não apenas no sentido superficial associado à política liberal de representação. Em vez de apenas pregar para os convertidos, ele deve atrair pessoas de uma ampla gama de origens e política. Queremos alcançar os mesmos jovens que serão alvo de recrutadores militares, por isso queremos alcançá-los primeiro. Claro, isso significará disputar ombro a ombro com muitas pessoas que não são anarquistas – isso significará um grande caldeirão confuso de diferentes políticas e conflitos e contradições – mas o objetivo é espalhar o anarquismo, não se esconder nele. Reúna todos em um espaço baseado na horizontalidade, descentralização, autodeterminação, modelos reprodutíveis, sendo ingovernáveis e assim por diante, e deixe-os descobrir as vantagens por si mesmos.
O mais importante é a participação pessoas que são pobres, instáveis e com raiva. Não por uma noção bizarra de caridade, mas sim porque as chamadas classes perigosas são geralmente a força motora da mudança de baixo. Gente confortável e bem-comportada não têm a tolerância ao risco essencial para fazer história e reinventar a cultura.
Imagine uma sociedade de auto-educação sem mentores, classificações ou planos de aula. Adolescentes vão aprender a tocar bateria assistindo outras adolescentes tocar bateria. Elas não aprenderão sobre política em tomos empoeirados nas bibliotecas, mas publicando zines sobre suas próprias experiências e correspondendo com pessoas do outro lado do planeta. Toda vez que artistas conhecidas se apresentam, bandas que estão apenas começando também se apresentam. A aprendizagem não será uma esfera distinta de atividade, mas um componente orgânico de todos os aspectos da comunidade.
Bad Brains se apresentando no Valley Green Housing Complex em Washington, DC, em 9 de setembro de 1979. Fotografia de Lucian Perkins.
O dadaísmo e o surrealismo eram OK, mas “a poesia deve ser escrita por todos, não por um”, como disse o Conde de Lautréamont. Nossa subcultura ideal não é uma série de artistas – é mais como uma rede de gangues das classes baixas em que todo mundo tem uma banda, um zine ou pelo menos uma ficha criminal. A arte não é apenas o que está acontecendo no palco – são os desenhos que as pessoas inscrevem em suas jaquetas e camisas e corpos, a dança e beijos e brigas e vandalismo, a atmosfera que elas criam juntos. O mito coletivo de um movimento mundial de base. Que esse mito seja território contestado – o conflito manterá as pessoas investidas.
Nossa subcultura será dionísia – sensual, espontânea, selvagem – um gêiser incontrolável de sentimento cru. O apolínio (o racional, o intencional, o ordenado) seguirá a energia caótica que impulsiona esse movimento, não o precede. Propostas intelectuais podem se basear em adrenalina, luxúria, violência e prazer, mas não podem substituir experiemtar tudo isso na prática.
Portanto, nada santificador, nada triunfalista ou moralista. Melhor um romantismo corajoso que vê dignidade na derrota, bem como na vitória, uma atitude despretensiosa que diz que “nada humano é estranho para mim”.
Esta subcultura deve ser um espaço onde as pessoas possam aprender sobre política de consentimento e afirmar seus limites contra figuras de autoridade invasivas, homens autocentrados e outras pragas. Ao mesmo tempo, deve espalhar uma socialidade rebelde que corrói os confins físicos e emocionais que individualizam o sujeito capitalista. “Nossa utopia não é um mundo em que ninguém esbarra em você – é um mundo em que todos se chocam e isso é alegre e bom, no qual significa algo diferente quando as pessoas se chocam contra você.”
Saindo deste ponto de partida, podemos voltar a uma maneira alternativa de viver: espaços e infoshops auto-organizados, casas coletivas, ocupações, distribuição de comida grátis, grupos de estudo, grupos de afinidade, feminismo, veganismo, não-monogamia, eco-defesa, desemprego militante – o céu é o limite. Uma rede mundial de espaços e movimentos e estilos de vida contraculturais. Uma reação em cadeia de rebeliões disparando como uma série de fogos de artifício que circundam o globo.
Só agora, com o benefício de poder olhar tudo em retrospectiva, podemos compreender quanta sorte temos por participar de um dos maiores movimentos de arte popular contracultural dos últimos centenas de anos.
Uma banda que se apresenta no Espaço Cultural Semente Negra, o Centro Cultural Black Seed, no Peruíbe, Brasil.
Sindicatos, Hippies, Punks, Millennials
“Se há alguma esperança para a América, ela está em uma revolução, e se há alguma esperança para uma revolução na América, está em fazer com que Elvis Presley se torne Che Guevara.”
“Punks são hippies.”
-GISM
Agora vamos situar o surgimento dessa contracultura historicamente, na segunda metade do século XX.
Os poderosos e rebeldes movimentos trabalhistas do início do século XX foram comprados, abandonando as demandas por autodeterminação em troca de salários mais altos, bens de consumo mais baratos e mais segurança no trabalho – o chamado Compromisso Fordista, embora a mesma coisa tenha sido chamado “socialismo” no Bloco Oriental. Assim integrada na autorregulação do mercado, a burocracia sindical estava lentamente sendo superada pela terceirização corporativa à medida que o capitalismo transformou toda a terra em uma única cadeia de suprimentos integrada.
O stalinismo, o fascismo, a Segunda Guerra Mundial, dois Red Scares (ameaça comunista criada pela mídia) e a Guerra Fria esmagaram os movimentos anarquistas do início do século XX, polarizando a maior parte da humanidade em uma dicotomia entre falsa liberdade e falsa igualdade, que se resumia a uma escolha entre a CIA e a KGB. Aqueles que nasceram após a Segunda Guerra Mundial cresceram sem horizonte para mudanças sociais além de tentar reformar um lado ou outro dessa dicotomia.
Ao mesmo tempo, graças ao fordismo, os baby boomers (nascidos no pós Segunda Guerra) tiveram acesso a uma gama mais ampla de produtos do que qualquer geração anterior. O marketing corporativo incentivou os jovens a se entenderem como um grupo distinto, com seus próprios interesses e aspirações. A cultura jovem produzida em massa gerou inadvertidamente a possibilidade de uma rejeição em massa da cultura dominante, criando novos pontos de referência compartilhados que ultrapassavam as antigas divisões nacionais, culturais e sociais.
Originalmente sendo uma forma de arte da classe trabalhadora emergente das comunidades negras nos Estados Unidos, o Rock foi uma das mercadorias que os capitalistas começaram a cultivar como uma cultura comercial para esse mercado de massa. Nesse contexto, o sucesso dos Beatles representava o sonho de mobilidade econômica de que qualquer um pode ter sucesso — mas também foi uma tentativa incompleta de se apropriar e domesticar a rebelião da juventude da classe trabalhadora. O fato de quatro proletários comuns de Liverpool, valendo-se de toda a tecnologia de gravação e atenção popular de toda uma civilização, terem passado de cantar “Love Me Do” em 1962 a gravar o LP “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” em 1967 implicava uma possibilidade utópica que excedia tudo o que o mercado poderia oferecer: se todos tivéssemos essas oportunidades, não poderíamos todos ser artistas? Os rapazes de Liverpool, assim como a geração que cresceu ouvindo suas músicas, descobriram que não estavam satisfeitos com as opções à sua disposição, mesmo no topo da pirâmide — e os grupos sociais que se uniram por meio de atividades de consumo compartilhadas se rebelaram contra o conformismo e a alienação da sociedade de massa.
Em seu livro, Do It!, o líder yippie Jerry Rubin atribuiu a agitação dos anos 1960 a essa progressão: “A Nova Esquerda surgiu, uma criança predestinada e revoltada, do movimento pélvico de Elvis”. A geração que começou se rebelando contra a repressão sexual dos pais ouvindo rock and roll acabou ocupando universidades e protestando nas ruas. Na época do festival de Woodstock, em agosto de 1969, essa contracultura contava com milhões de adeptos.
Um panfleto proto-punk do coletivo Up Against the Wall Motherfucker.
Apesar do espírito antiautoritário dessas culturas juvenis, o ressurgimento do anarquismo propriamente dito foi limitado. Anarquistas estabeleceram presença na campanha pelo desarmamento nuclear na Grã-Bretanha e representavam uma minoria influente dentro do Students for a Democratic Society (Estudantes por uma Sociedade Democrática) nos Estados Unidos. Up Against the Wall Motherfucker, a “gangue de rua com uma análise”, traduziu o conceito anarquista espanhol de grupos de afinidad para o modelo anglófono de grupos de afinidade; assim equipados, eles invadiram o Pentágono, cortaram as cercas em Woodstock e levaram um mimeógrafo quando ocuparam a casa de shows de rock de Bill Graham para exigir uma noite de shows gratuita para o povo. No entanto, com o passar da década, os marxistas autoritários venceram as lutas pelo poder dentro da liderança de muitos dos movimentos da época. Assim como o golpe de Marx dentro da Associação Internacional dos Trabalhadores um século antes, essas vitórias pírricas contribuíram para o colapso dos próprios movimentos.
Dentro da contracultura, o sistema de estrelas do rock introduziu suas próprias hierarquias. Em Woodstock, meio milhão de pessoas assistiram da lama enquanto uma série de celebridades subia ao palco.
Enquanto isso, capitalistas começaram a incorporar as demandas hippies por individualidade e diversidade ao mercado. Isso coincidiu com a transição da produção em massa fordista para bens de consumo e identidades cada vez mais diversificados — a mudança das economias de escala para as economias de escopo. Se a Beatlemania exemplificou a cultura de massa, o surgimento do metal, do punk e do hip hop na década de 1970 exemplificou a proliferação “pós-fordista” das subculturas.
No verão de 1976 — cem anos após a morte de Mikhail Bakunin, quatorze anos após a gravação de “Love Me Do” e sete anos após o festival de Woodstock — os Sex Pistols fizeram sua primeira aparição na televisão, tocando “Anarchy in the UK”, a música que se tornou seu single de estreia. “Bakunin teria amado isso”, brincou o apresentador de televisão quando eles terminaram.
A primeira aparição dos Sex Pistols na televisão, interpretando “Anarchy in the UK”, no programa So It Goes, em 28 de agosto de 1976. “Bakunin teria amado isso”, brincou o apresentador Tony Wilson.
Aqui está, na estreia pública do punk propriamente dito: a prova das credenciais anarquistas do punk. Todas as tentativas de amenizá-lo vieram só depois.
Então, sim, o punk foi uma reação às contraculturas da década de 1960. O vocalista dos Pistols, Johnny Rotten, abriu aquela apresentação na televisão com uma frase sarcástica sobre Woodstock, rejeitando tudo o que havia de presunçoso e ingênuo na era hippie — todas as maneiras pelas quais, ao parecerem ter sucesso, os hippies foram neutralizados e assimilados.
Mas o punk também foi uma continuação dessas contraculturas. Ele recapitulou o mesmo processo de radicalização que a geração de Jerry Rubin havia experimentado — só que intensificado, como uma bactéria que se tornou imune aos antibióticos. Desde o início, os punks se esforçaram muito para se diferenciar dos hippies; em retrospecto, o punk era tudo o que os hippies não conseguiam domesticar e mercantilizar. Sem palcos de festivais, mas shows em porões; não tinham tie-dyes e símbolos da paz, mas jaquetas de couro e brigas de rua ao estilo Up Against the Wall Motherfucker. Afinal, o que é uma banda punk senão um grupo de afinidade com guitarras? Ao discutir os Sex Pistols, John Lennon observou que os Pistols estavam fazendo intencionalmente todas as coisas que o empresário dos Beatles os proibiu de fazer no início de sua carreira comercial.
Um ano após os Pistols lançarem “Anarchy in the UK”, a banda Crass (uma das primeiras bandas punk identificadas com o termo redundante “anarcho-punk”) começou em um projeto de vida coletiva que os membros Penny Rimbaud e Gee Vaucher fundaram em 1967. Podemos traçar a origem do punk através da banda Crass diretamente até os hippies, incluindo o pacifismo que a próxima geração de punks rejeitou.
Como parte da mudança pós-fordista, a tecnologia de publicação e a produção musical estavam finalmente se tornando amplamente acessíveis ao público em geral. Crass foi uma das novas bandas punk do tipo “faça você mesmo” que lançaram seus próprios discos. (Conta-se que eles tiveram que prensar 5.000 cópias de seu LP de estreia porque essa era a tiragem mínima que uma fábrica de prensagem produzia na época). Ao autogerirem o processo de produção, em vez de se venderem a uma gravadora, eles conseguiram sequestrar a mística que décadas de investimento e promoção capitalistas haviam conferido à indústria do rock, recuperando-a para o tipo de subculturas juvenis autônomas que haviam produzido o rock’n’roll em primeiro lugar.
Crass.
Ao mesmo tempo, os mercados globalizados e voláteis estavam minando a estabilidade dos empregos da metade do século XX. Em 1977, os filhos dos trabalhadores demitidos podiam ler os sinais, ecoados na letra do próximo hit de sucesso dos Sex Pistols: “No future” (Sem futuro). O punk ganhou popularidade entre os pioneiros da força de trabalho descartável de hoje, numa época em que os sem futuro ainda eram uma minoria amarga e isolada. Era o canto do canário na mina de carvão.
Mas levou décadas para que o fordismo entrasse em colapso total, desaparecendo junto com as massas complacentes que havia produzido. Foi somente em 2007 que o Comitê Invisível, em A Insurreição que Vem, pôde escrever:
“O futuro já não tem futuro” constitui a sabedoria de uma época que atingiu, sob a sua aparência de extrema normalidade, o nível de consciência dos primeiros punks.
Hoje, em uma época de crises econômicas e ambientais generalizadas, pandemias e guerras, quando praticamente ninguém mais antecipa um futuro brilhante, o punk tornou-se redundante, pelo menos como uma rejeição minoritária do otimismo e da estética capitalista. Se não colocarmos o punk em seu contexto histórico — como uma reinvenção de formas preexistentes de resistência em resposta a condições específicas —, não compreenderemos seus pontos fortes nem os limites que alcançou. Considerando as mudanças que estavam ocorrendo no mercado de trabalho e na identidade do consumidor, não é surpreendente que, a partir da década de 1980, mesmo os anarcossindicalistas mais doutrinários tenham sido inicialmente politizados pela música punk, e não pela organização no local de trabalho. Da mesma forma, para entender por que o punk estagnou no início do século XXI, temos que reconhecer as maneiras como ele antecipou e depois foi absorvido pelas redes online, modelos participativos e identidades voláteis da Era Digital.
Nausea se apresentando na Tompkins Square. Fotografia de Chris Boarts, da Slug & Lettuce.
Da década de 1970 até a virada do milênio, quase todas as pessoas com tendências ao confronto foram efetivamente isoladas em uma subcultura distinta. Mas, à medida que a mudança das economias de escala para as economias de escopo se acelerou, essas subculturas deixaram de ser afiliações discretas e de longo prazo. Hoje, as pessoas acumulam identidades de consumo como se fossem figurinhas colecionáveis, enquanto muitos identificadores subculturais não duram mais do que o tempo necessário para circular um meme. Tornou-se tão difícil isolar a rebelião em grupos sociais específicos quanto constituir um sujeito revolucionário coerente.
Da mesma forma, a economia subterrânea baseada em redes do tipo “faça você mesmo” prefiguram o hipercapitalismo contemporâneo, no qual a autogestão de nossa comercialização se estende a todos os aspectos de nossas vidas sociais e tempo de lazer. Crass e seus contemporâneos alcançaram inovaram ao usar formatos que antes eram inacessíveis à classe trabalhadora para espalhar mensagens subversivas, mas, nesse processo, eles inadvertidamente foram pioneiros e validaram uma nova forma de empreendedorismo, abrindo caminho para empreendedores menos politizados. Todas as deficiências identificadas pelos punks na mídia capitalista unidirecional do final do século XX (“Kill your television!”) informam a mídia capitalista participativa de nossos dias. Quem precisa ter uma banda e ir ensaiar quando você pode fazer um vídeo em seu smartphone e postá-lo no Tik Tok imediatamente? Faça você mesmo!
É claro que as plataformas de mídia social dificilmente domaram as novas gerações. Dando continuidade ao processo de assimilação e reinvenção, as revoltas atuais se inspiram em todos os aspectos do punk que não puderam ser domesticados, mercantilizados ou superados. Levantes sem shows punk; moletons pretos sem patches, para que a polícia não possa identificar você; desafio e rebelião sem hinos, sem estética, sem esperança.
Em todo caso, corrigimos os vestígios da era hippie que perduraram durante a primeira fase do punk. Quando os Pistols surgiram, eles estavam reagindo contra uma subcultura que envolvia muita arte e pouca rebelião; muito entretenimento e pouca ruptura; muito otimismo e pouca realidade. À medida que avançamos neste século que já é caracterizado pela destruição e pelo desespero, precisamos de um pouco mais de arte, criatividade e otimismo.
Essa é uma das muitas razões pelas quais o punk continua relevante no século 21.
“Hoje, no movimento anarquista, às vezes sentimos falta do espírito dionisíaco que caracterizou a cena hardcore punk underground no seu auge: o coletivo, experiência encarnada em uma liberdade perigosa. Isso é como o punk pode nos inspirar em nossos experimentos anarquistas do hoje e do amanhã: como uma saída transformadora para a raiva, a dor e a alegria, um modelo positivo de união e autodeterminação em nossas relações sociais, um exemplo de como o impulso destrutivo pode também ser criativo – e vice versa.”
-“Música Como Uma Arma: A Conflitante Simbiose do Punk Rock e o Anarquismo”
A história não está dividida em períodos bem definidos; é mais como uma série de camadas sedimentares que compõem o presente. Esta noite, enquanto você lê isto, uma orquestra sinfônica está se apresentando num bairro rico da cidade, uma banda de jazz está tocando no centro e uma banda punk está tocando na periferia.
Punk’s not dead, I know—Punk’s not dead, I know it’s not (O punk não morreu, eu sei — o punk não morreu, eu sei que não).
Se entendermos o punk como herdeiro de tradições de resistência de longa data, isso explicará sua importância persistente para o anarquismo. Enquanto uma geração mais velha de radicais orientados para o trabalho costumava ridicularizar os compromissos políticos dos punks como efêmeros, o punk é muito mais antigo — e estável — do que os modelos contemporâneos de organização política; ele remonta a uma época em que as subculturas ainda produziam identificações e compromissos duradouros. Não é de se admirar que muitos dos que ainda mantêm a infraestrutura da organização anarquista ano após ano sejam punks de longa data. O punk combina a agitprop (agitação e propaganda) envolvente e as redes globais dos movimentos culturais do século XXI com a longevidade das formações políticas pré-internet.
Anarquistas inspirados no punk na manifestação do Dia dos Trabalhadorys em Bandung, 2019. Fotografia deFrans Ari Prasetyo.
Coda: Testemunho
A banda punk do meu amigo está tocando na pequena cidade do sul ao lado da minha. O local é um abrigo antiaéreo da Guerra Fria. Chama-se The Fallout Shelter.
Um carro da polícia para em frente ao local e um policial sai. Enquanto o policial está incomodando os punks na calçada, meu amigo atravessa a rua. Ele se ajoelha, rasteja para trás do carro da polícia e fura o pneu com seu canivete.
O policial precisa pedir reforços pelo rádio. Durante toda a noite, entre uma banda e outra, os punks bebem na calçada e aplaudem ironicamente enquanto a polícia se esforça para trocar o pneu.
Na primeira semana do ensino médio, a banda Seven Seconds toca no único casa noturna da minha pequena cidade. O show termina como todos os grandes shows de hardcore terminam por lá: em uma enorme briga com skinheads que se espalha pela rua principal.
Na manhã seguinte, vou para a aula com um hematoma no braço com o formato exato da marca de uma bota Doc Martens. Isso me marca: eu não faço parte do seu mundo.
Na década seguinte, entro para uma banda, começo a publicar uma revista independente, envolvo-me em debates intermináveis sobre dança, moda, comida e lutas. Faço amizade com as pessoas que trabalham no turno da noite na copiadora ao fundo da rua. Fico acordado a noite toda a fotocopiar revistas independentes, estritamente fora dos livros. Alguém na República Checa envia-me uma cópia do LP Kritická Situace em troca da minha revista independente. Levo o LP para a estação de audição da biblioteca pública porque não tenho um toca-discos. Dirijo doze horas para tocar em um show com a presença de valentões que prometeram me atacar assim que me vissem. Organizo shows para bandas. Lanço discos.
Nossa banda sai em turnê. Noite após noite, as pessoas nos hospedam e, às vezes, até nos alimentam. Compramos uma van juntos. Viajamos pelo país, tocando em locais auto-organizados e ficando em casas coletivas. No exterior, vemos pela primeira vez prédios gigantes ocupados, com faixas penduradas nas paredes, arquivos do movimento e oficinas de conserto de bicicletas que atendem a vizinhança. Começamos a perceber que fazemos parte de algo muito maior do que imaginávamos.
Só depois de três meses em turnê é que percebo que passei de pensar na primeira pessoa do singular para a primeira pessoa do plural. Nós.
Conhecemos os veteranos da geração Crass. Todos eles têm algumas décadas a mais do que nós; somos os mais jovens em todos os shows no Reino Unido. Um membro do Doom nos leva pelas Ilhas Britânicas em sua van, já que não estamos acostumados a dirigir do lado esquerdo da estrada.
Uma noite, o cara do Doom fica acordado até tarde conversando com um membro do Subhumans. Eles acabam discutindo se o Clash arruinou o punk ao se vender para uma gravadora corporativa. Tenho a impressão de que eles vêm tendo a mesma discussão há vinte anos. Ainda assim, isso me ajuda a pensar nos meus próprios compromissos em um prazo mais longo.
Reclaim the Streets — Millions for Mumia — a Conferência Nacional sobre Resistência Organizada — a cerimônia de Posse Presidencial. Durante cada conferência, antes ou depois de cada protesto, há um show punk. Não apenas bandas, mas também espetáculos de marionetes, performances artísticas, equipes de torcidas radicais. Punks itinerantes montam mesas com livros, todas elas compostas exclusivamente por livros de Noam Chomsky roubados das livrarias Barnes & Noble. Às vezes, o black bloc parte diretamente do mosh pit.
Em São Paulo, participo de uma manifestação contra um monumento que celebra 500 anos de colonialismo. Todos estão mascarados. Os punks atrás de nós jogam bombas de tinta no monumento e pedras na polícia de choque à nossa frente. A polícia dispara tiros de balas letais sobre nossas cabeças. Depois, nos escondemos dentro de uma barraca de açaí para que os policiais não nos identifiquem pela tinta em nossas roupas.
Dias antes, Abuso Sonoro tocou no Guarujá. O guitarrista se apresenta usando a mesma máscara que usou na manifestação. Uma cultura mundial de resistência.
A primeira vez que chegamos ao Ungdomshuset, o espaço punk ocupado em Copenhague, todas as janelas da vizinhança estavam fechadas com tábuas. Houve alguns distúrbios aqui na noite anterior, explicam nossos anfitriões, porque a polícia quer deportar um homem para a Turquia. Após o show, enquanto dormimos no quarto de hóspedes, a polícia fica do lado de fora do prédio em um carro blindado, gritando ameaças por um alto-falante aos punks que montam guarda no telhado.
Na quarta vez que visitamos o Ungdomshuset, somos muitos para dormir no quarto de hóspedes. Em vez disso, nossos anfitriões estendem tatames por todo o comprimento do grande salão. Desenrolamos nossos sacos de dormir e nos deitamos em fila, trinta ou mais de nós — as bandas, os organizadores e todos os viajantes aleatórios que não têm outro lugar para ficar, juntos sob o teto abobadado do prédio onde o Dia Internacional das Mulheres foi anunciado em 1910. Que a Terra seja um tesouro comum para todos. Antes de dormir, viro-me para a pessoa que está deitada à minha esquerda. “De onde você é?”
“Eu? Sou da Austrália”, ela responde. “E você, de onde é?”
Um ano depois, a polícia invade e demole o prédio na maior operação na Dinamarca desde a Segunda Guerra Mundial. A cidade entra em tumulto por uma semana; as manifestações continuam semanalmente por um ano. Planos estão em andamento para que milhares de pessoas ocupem à força a prefeitura quando o governo ceder e conceder aos invasores um novo prédio. Da próxima vez que eu for à Dinamarca com uma banda, tocaremos lá, no novo Ungdomshuset.
Ungdomshuset.
Anos mais tarde, durante o movimento Occupy, uma nova geração entrou na comunidade anarquista da nossa pequena cidade do sul. São os primeiros a chegar sem ter o punk como referência.
“Mas você tem que fazer um workshop sobre punk também”, diz-me Liz, após um treinamento de ação direta.
“Um workshop? Por quê? O punk é apenas um estilo musical, não é essencial para essas coisas”, respondo. Décadas de discussões sobre a insularidade subcultural me tornaram um pouco sensível a esse assunto.
“A workshop? Why? Punk is just a style of music, it’s not essential to this stuff,” I answer. Decades of arguments about subcultural insularity have made me a little touchy on this subject.
“Talvez, mas para todos vocês que se conheciam antes disso, o punk é como uma irmandade da qual vocês faziam parte, ou uma sociedade secreta. Um monte de referências a bandas das quais nunca ouvimos falar, como um código secreto. Isso só surge quando vocês estão socializando entre si, mas… é assim que as pessoas formam intimidade, certo? Vocês têm que nos deixar participar disso.”
Alguns anos depois, o grupo estudantil anarquista da universidade local convida os moradores mais velhos da cidade para fazer uma apresentação. Eu imagino que eles querem que falemos sobre cultura de segurança, processo de consenso ou a Guerra Civil Espanhola. Mas na verdade, eles querem que falemos sobre punk.
Roxy e eu pegamos um espelho de corpo inteiro da fábrica de vidros abandonada ao lado da minha casa e o levamos para a sala de aula. Nós o colocamos de frente para o público. Começo a recitar uma palestra enfadonha, vestindo uma camisa social, como um professor. Enquanto os olhos deles estão voltados para mim, Roxy acerta o espelho com um taco de beisebol, espalhando cacos por toda parte e uma batida d-beat começa.
“Pronto, por que faríamos isso?”, ela pergunta a eles depois, e as respostas deles dizem tudo o que precisam saber sobre o que é o punk. Seja qual for a concepção que você tem de si mesmo e do mundo em que se vê, destrua-a — seja o que for que você considere azar, faça agora mesmo — e comece a partir daí, recriando a si mesmo e ao mundo.
Para ler e ver mais:
- Do Punk à Solidariedade Indígena: Quatro Décadas de Anarquismo no Brasil
- Música Como Uma Arma: A Conflitante Simbiose do Punk Rock e o Anarquismo
- VIVER PARA LUTAR: Punk, Anarquismo e Feminismo - As minas dos anos 90
- Afropunk: The Movie
- Beyond The Screams/Mas Alla de Los Gritos—A documentary about Latin@ hardcore punk in the US
- The Last Of The Hippies—An Hysterical Romance, Penny Rimbaud
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